O mito da natureza intocada: A história humana por trás dos Mananciais da Serra
A imagem da Serra do Mar como uma "natureza intocada" foi um fator decisivo para sua escolha como fonte de água para Curitiba no século XIX. Contudo, a dissertação da historiadora Lorena de Pauli Cordeiro, "Uma História Ambiental dos Mananciais da Serra do Mar", revela que essa percepção era um mito e expõe a complexa realidade humana que existia na região.
A pesquisa de Cordeiro demonstra que a área, antes de ser transformada em um grande reservatório, não era um vazio demográfico. A região, conhecida como "Invernada do Piraquara", abrigava comunidades que viviam da agricultura de subsistência e do extrativismo, em uma relação integrada com a floresta.
Segundo a historiadora, essas populações, com seu modo de vida discreto, eram frequentemente "invisíveis" aos olhos dos observadores urbanos, o que reforçava a ideia de uma natureza selvagem e desabitada. A construção do sistema de abastecimento representou, portanto, um processo de "desterritorialização", no qual as antigas formas de uso da terra deram lugar à nova lógica da proteção hídrica.

A análise de Lorena de Pauli Cordeiro conclui que essa transformação revela uma tensão histórica entre o uso humano e a preservação. O local que um dia foi morada e sustento para comunidades locais tornou-se, primeiro, uma infraestrutura de engenharia e, mais tarde, um ícone da preservação ambiental, carregando múltiplas camadas de significado em sua paisagem.


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